590 25/03/2020 às 11:00

Quando acaba a quarentena? O que preveem infectologistas e epidemiologistas

Redação Em Dia ES

Infectologistas e epidemiologistas dizem que será preciso acompanhar a evolução da transmissão do novo coronavírus pelas próximas semanas
Quando acaba a quarentena? O que preveem infectologistas e epidemiologistas. Foto: Divulgação
Quem aderiu aos pedidos e determinações de quarentena como forma de combate ao novo coronavírus viu a vida virar do avesso nos últimos dias. E quer saber: quando a rotina voltará ao normal? A resposta, segundo especialistas, é que não é possível prever com precisão, por enquanto.

Infectologistas e epidemiologistas dizem que será preciso acompanhar a evolução da transmissão do vírus pelas próximas semanas, para avaliar se o nível de contaminação está desacelerando e, a partir daí, afrouxar as restrições.

"Se nos próximos 15 dias houver um controle do surto e o crescimento dos casos for controlado, nós já vamos poder entender a força dessas medidas e pensar na desmobilização com calma, cautela e responsabilidade. Agora, se não estivermos controlando, talvez até medidas mais extremas tenham que ser tomadas", considera o médico Estevão Urbano, presidente da Sociedade Mineira de Infectologia.

"A curto prazo, a expectativa é que haja um pico de casos nos próximos 10 a 14 dias. Se esse aumento for menor do que o previsto, será o prêmio de todo o esforço que está sendo feito, um indicativo de abrandamento das expectativas e a redução na necessidade de manutenção das medidas", afirma o infectologista Renato Grinbaum, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Quando as coisas voltam ao normal?
Pesquisadores asseguram que o sucesso das medidas depende do engajamento da população — em outras palavras, quanto mais à risca o isolamento for seguido, menor será o tempo necessário de quarentena. No cenário de maior duração, estimam de dois a três meses para que a circulação de pessoas seja normalizada.

"O que deve acontecer é que, após o pico, ao longo dos próximos dois ou três meses, dependendo do país, as medidas serão paulatinamente relaxadas. Obviamente, vai permanecer o isolamento de todos os pacientes que ainda têm sintomas, mas a quarentena geral tende a ser relaxada, na medida em que essa curva epidêmica dá sinal de redução, o que possivelmente ainda vai demorar um ou dois meses para acontecer", estima o epidemiologista Guilherme Loureiro Werneck, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Werneck adianta que, mesmo após o pico, ainda deveremos ouvir falar bastante da covid-19. "A expectativa é que permaneça sendo um problema de saúde pública que vai acometer várias populações ao longo de um ou dois anos, eventualmente com retornos de curvas epidêmicas, mas não nos níveis atuais."

A possibilidade de cenários com e sem surtos sucessivos também é considerada nos modelos matemáticos do físico Roberto Kraenkel, pesquisador do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista (Unesp). "Não se pode projetar o fim da epidemia no Brasil. Todas as projeções pelo mundo têm muitas hipóteses que podem não ser verdadeiras", alerta.

Dificuldades no combate ao vírus
Entre os fatores que podem afetar o período de quarentena, Tânia Vergara, presidente da Sociedade de Infectologia do Estado do Rio de Janeiro, destaca a realização de testes. "Se tivéssemos como testar todos os casos suspeitos, como fez a Coreia do Sul, o isolamento seria mais eficaz, já que incluiria assintomáticos e pouco sintomáticos".

Outro aspecto a ser analisado nas projeções é o momento de início das restrições. A Itália, por exemplo, começou a tomar medidas em um momento posterior ao que foi observado aqui, mas o perfil demográfico nos dois casos é muito diferente, assim como o sistema de saúde.

"A quarentena poderá ser mantida se tivermos uma situação como na Itália, o que considero pouco provável, porque, apesar de termos condições sanitárias piores, em cidades como São Paulo a preparação foi adequada", opina Grinbaum.

"Estou me preparando para ficar três meses em casa"
O infectologista e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Bernardino Geraldo Alves Souto, vê atraso na tomada de providências em São Paulo. "Quanto mais tardia for a intervenção, mais acelerado vai ser o crescimento da epidemia. Aqueles países que tomam as medidas preventivas mais tardiamente, que esperam a doença chegar para depois agir, perdem o controle da situação", argumenta

Para Souto, no caso brasileiro, é preciso considerar que o Sistema Único de Saúde (SUS) é negligenciado há muitos anos e há fragilidades de ordem sociocultural, como a postura individualista daqueles que não estão seguindo as recomendações.

"Nós ainda estamos em uma situação de muita imprevisibilidade em relação ao curso que a epidemia pode seguir, mas acredito que não devemos contar com boas expectativas. Devemos pensar no pior cenário", defende o professor da UFSCar. "Acho que, aqui no Brasil, temos que nos preparar para uma quarentena de uns 3 meses. Se conseguirmos interromper antes, melhor. É possível que a gente consiga fazer em menos do que isso, mas eu estou me preparando para ficar dentro de casa durante três meses".

O infectologista lembra que o grande problema da covid-19 é o aumento do número de infectados de um dia para o outro, o que sobrecarrega os sistemas de saúde. "Por enquanto, temos no Brasil uma taxa progressiva, então é impraticável pensar em revogação da quarentena, e não temos uma perspectiva precisa de quando esse momento de diminuição vai chegar, se ele vai ser em um ou dois meses. Eu acho que em menos de dois meses ele não chega."

Taxas diferentes de região para região
Além das especificidades do país como um todo, os especialistas também destacam as diferenças regionais. "Acredito que teremos heterogeneidade de epidemias dentro do Brasil. Regiões mais pobres, com maior densidade populacional e menor saneamento básico poderão ser mais afetadas", adianta Grinbaum, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

"Para onde a pobreza vai, a doença vai atrás. Hoje temos lugares no Brasil em que moram 20 pessoas em um cômodo só. Acho pouco provável que a Itália tenha um problema desses, por isso sugiro que nos preparemos para o pior cenário possível", concorda Souto.

"Talvez mais difícil do que a decisão de entrar seja a decisão de sair da quarentena", opina o médico Urbano. "É muito duro tomar essas medidas, mas é o que neste momento parece mais adequado. Lá na frente vamos poder olhar para trás e ver o que foi certo e o que foi errado."
 
 
 

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