905 27/02/2022 às 09:53 - última atualização 06/03/2022 às 14:54

Leitura Em Dia | O que a Semana nos deu...

Por João Fiorot _ #7

Redação Em Dia ES

...E o que ela ainda não conseguiu tirar
O que a Semana nos deu
Quando Monteiro Lobato escreveu aquele texto horroroso criticando Anita Malfatti, mal sabia ele que era como se estivesse tentando impedir uma onda de quebrar.

Talvez, o escritor até soubesse, no fim das contas — imagino que todo conservador saiba; que seus esforços não são páreo para a ação do tempo, porque a única força que não muda é a mudança. Apegar-se a quaisquer padrões, fica constatado pela própria evolução das artes clássicas, não é produtivo. Ao mesmo tempo que é preciso emprestar, ou antes roubar, dos grandes, é necessário que exista uma inventividade, leia-se gambiarra, que faça com que a arte se torne fresca e arejada, ao invés de manter o cheiro de fechado e de mofo do museu das ideias velhas. É por aí que começamos a entender o que a Semana da Arte Moderna, que completou 100 anos este ano, nos deu. 

Em poucas linhas, o contexto histórico que possibilita a Semana da Arte Moderna de 22 é o envolvimento de jovens artistas com o que vinha sendo produzido na arte europeia e uma tentativa de fazer aqui o que se fazia lá, só que do nosso jeito. Isso foi visto com péssimos olhos pelos críticos conservadores, acumulados nesse texto na figura de Monteiro Lobato. Eles só conseguiam acreditar em uma arte que fosse completamente original — como se fosse possível escrever ou pintar, em pleno século XX, aquilo que já não houvesse sido feito anteriormente em algum outro ponto do globo. O mundo já era um bastante velho, o que de melhor se podia fazer era beber de todas fontes e misturar todas influências para sintetizar algo novo. 

Para além disso, a efervescência política dos acontecimentos da época (revoluções, guerras, o surgimento de novas tecnologias) atraía os olhares dos artistas para o lado de fora de suas almas. Falar de sociedade, política, liberdade, pobreza, tornou-se uma necessidade pungente muito mais relevante do que criar fábulas com ensinamentos morais, ou, ainda, recitar o quão difícil e trabalhoso era escrever uma poesia. Contestar os sapos do status quo era uma questão de honra. O que, novamente para os conservadores, era ultrajante já que a arte devia manter-se presa na jaula da transcendência e deveria ter-se como fim em si mesma. 

Quando os jovens privilegiados começaram a escrever, pintar e cantar sobre as mazelas de um país cheio de defeitos e escasso de oportunidades, propondo algo que incipientemente sugeria que a nossa colonização exploratória deixou mutilações pelo caminho, os privilegiados que não queriam pensar ou falar sobre isso resolveram contestar. Mas, quem contesta os contestadores? 

A seu lado, os sapos tinham o status quo. Ao lado da primeira geração de modernistas, a realidade — que apesar de não ser bonita, é verdadeira.

A sanha para esse tipo de crítica vindo de uma arte mais popular, que começa frases pelos pronomes oblíquos, nos deu a ironia e a sagacidade necessárias para tecer comentários no nosso cotidiano. Contudo, ainda paira sobre a cabeça de muita gente que o preço da popularidade é a inteligência e quando vemos uma Anitta (não a Malfatti, que usava um “t” só) criticar publicamente um governo indesculpavelmente inútil, vemos também o crescimento do ad hominem (ou ainda do ad femina) nos comentários das redes sociais, onde se diz “que gabarito você tem para falar disso ou daquilo?” quando o assunto não passa de questões objetivas da nossa contumaz triste realidade. 

A Semana de 22 nos convidou para chegar nos saraus da alta cultura de havaianas, mas, com medo de matar o rei na barriga, a gente continua tentando caber no terno e gravata..


O artigo publicado é de inteira responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam as ideias ou opiniões do site EMDIAES.
 
 
 

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