185 11/10/2020 às 11:51 - última atualização 18/10/2020 às 12:57

Coluna: Kiusam | “A minha pele preta não me define, o racista não me define, as lutas não me definem ...

Por Joacles Costa

Redação Em Dia ES

... as lutas não me definem, as dificuldades não me definem, as vitórias não me definem tampouco as derrotas.”
Kiusam | “A minha pele preta não me define, o racista não me define, as lutas não me definem
A escritora Kiusam Regina de Oliveira é nascida em Santo André-SP. Atuou como Professora da Universidade Federal no Espírito Santo - UFES. Possui Mestrado em Psicologia e Doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo, sendo também Especialista em Educação Especial. Educadora há vinte e seis anos, com experiência desde a educação infantil até o ensino superior. Arte-educadora, atuou como orientadora pedagógica do projeto Geração XXI, o primeiro de Ação Afirmativa do país.

Assessorou a implementação da Lei 10.639/03 em Diadema, de 2005 a 2016. Em 2010 e 2011, atuou como assessora na Secretaria de Cultura de Diadema nos assuntos da cultura voltada para as questões de gênero e raça, tendo como foco a dança. Em 2010, representou o Brasil no FESMAN – Festival Mundial de Artes Negras –, no Senegal. É Iyalorixá. Foi Integrante da ONG Olhares Cruzados. Kiusam é uma artista multimídia e coreógrafa. Tem palestrado pelo Brasil sobre a temática das relações étnico-raciais, focando em: candomblé e educação; corporeidade afro-brasileira; danças afro-brasileiras e cultura; e Lei 10.639/03 (Que orienta sobre o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana). 

Acompanhe a entrevista com a escritora Kiusam Regina de Oliveira

Joacles Costa: Quem é a mulher chamada Kiusam?
Kiusam de Oliveira: Sou uma mulher que carrega em si, tantas outras mulheres que reverenciam o sagrado feminino. Kiusam sou eu: Mãe Kiusam de Oxóssi, artista multimídia, bailarina desde a infância, coreógrafa pela inteligência corporal, ativista do Movimento Negro Unificado (MNU) desde jovenzinha, doutora em Educação e Mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), professora por 26 anos, escritora, formadora de professores, terapeuta integrativa. Sou visionária e afirmo que é preciso ter cuidado com pessoas que conseguem deslocar quanticamente, o órgão coração para qualquer outra parte do corpo que for preciso. Sou libriana, ar. Sou filha de Oxóssi, ar. A minha pele preta não me define, o racista não me define, as lutas não me definem, as dificuldades não me definem, as vitórias não me definem tampouco as derrotas. Sou da ordem do mistério ancestral, portanto, o Encantamento é tudo o que pode me definir, mas a partir desse momento que pensam ter uma revelação minha, tudo já está se dando, encantadamente, de outra forma. O ar-pensamento pode me definir. Para resumir, costumo dizer que sou uma pessoa que caminho astutamente carregando o meu coração nos pés. 

Joacles Costa: Quais são os livros publicados?  
Kiusam de Oliveira: Tenho somente quatro livros publicados e apesar disso, fazem um tremendo barulho no país. São eles: Omo-Oba Histórias de Princesas (MAZZA Edições, 2009), O Mundo no Black Power de Tayó (Editora Peirópolis, 2013), O Mar que Banha a Ilha de Goré (Editora Peirópolis, 2014) e O Black Power de Akin (Editora de Cultura, 2020).

Joacles Costa: Por que decidiu escrever histórias infantis? 
Kiusam de Oliveira: Eu não escolhi escrever histórias infantis: as histórias infantis me escolheram, pois escrevo desde meus dois anos e meio, estimulada por minha mãe e minhas histórias sempre se relacionaram ao meu universo: cresci entre crianças e tem sido assim, desde então. Eu vejo, escuto e sinto profundamente as crianças, inclusive as que vivem dentro de mim - a Kiusinha, minha criança interior e o Flechinha Azul, meu erê.
 
Joacles Costa: Como as crianças reagem quando leem seus livros?
Kiusam de Oliveira: Tenho um público leitor infantil que espera e sugere temas literários. Tenho um grupo de meninos que espera pelo Omo-Oba Histórias de Príncipes e acho isso incrível. Um outro grupo de meninos esperava por uma história com um menino negro protagonista. De qualquer forma, as crianças recebem minhas histórias sempre com o máximo de amor e vejo que cada personagem acaba virando parte das famílias destas crianças.  

Joacles Costa: Seus livros, apresentam diferentes temáticas. Resgatar histórias africanas ajuda a empoderar crianças negras?
Kiusam de Oliveira: É incrível, pois todas as histórias que escrevo tem como aspecto central a Ancestralidade que tanto me ensinou desde a minha infância. A Ancestralidade me edifica desde a infância até hoje. Pensar em África como o Berço da Humanidade é central num país racista como o Brasil, pois nos coloca no lugar de entender nossa realeza vivida em solo África o, antes do colonialismo, do roubo, do assalto, do extermínio, da escravidão imposta pelos brancos sobre a humanidade negra em solo africano. Redescobrir essa realeza é uma verdade que todo brasileiro, independente da raça/cor deveria ter a oportunidade de enfrentar, pois o mundo tem muito a ganhar reconhecendo o protagonismo do continente africano em todas as áreas do conhecimento.

Joacles Costa: A criança é capaz de reproduzir o racismo que vê?
Kiusam de Oliveira: Sim, a criança reproduz cotidianamente o racismo que vê no seio de sua família e/ou espaços por onde anda. Martin Luther King já afirmou que ninguém nasce racista e parece clichê falar isso, contudo, é necessário repetir e repetir tal frase uma vez que vivemos num país onde as pessoas insistem em não reconhecer o valor fundamental de uma Educação Antirracista.

Joacles Costa: Por que educar profissionais da Educação faz parte da luta contra o racismo?
Kiusam de Oliveira: Educar profissionais da Educação para uma luta didático-pedagógica Antirracista torna-se fundamental enquanto política pública, compromisso de cada plano gestor de políticos em suas diversas instâncias municipal, estadual e federal. Racismo mata e o faz desde a infância das crianças negras que comprovadamente através de diversas pesquisas acadêmicas desde década de 1980, afirmam que as crianças negras conhecem o racismo quando saem da socialização primária, que se dá no seio da família e vai para a secundária, quando vão para a escola. É fundamental que profissionais da Educação questionem: Por que e como a escola se constitui neste espaço violento para as trocas identitárias? Será que deveríamos pensar no retorno dos estudos sobre o multiculturalismo no país, como apontado na década de 1990? Por que a dificuldade destes profissionais em compreender algo dado e posto de que a população negra é maioria neste país, portanto, enquanto profissionais da Educação pública, trabalhamos para esse povo, o povo brasileiro? Enquanto formadora de profissionais da Educação nos últimos 20 anos o que descobri é que quando a gestão pública oportuniza formação destes profissionais fundamentada no Direitos Humanos e na temática da Educação para as Relações Étnico-raciais ganha em qualidade e premiações em suas redes: o ânimo, a empolgação dos profissionais em perceber um coletivo de estudantes se reconhecendo, se amando, se valorizando não têm preço.

Joacles Costa: A literatura tem permitido que crianças negras sejam valorizadas? 
Kiusam de Oliveira: A agitação que tem acontecido no meio da literário infantil vem de nós, autoras negras. A Literatura Negro-brasileira Feminina tem agitado esse cenário e falo, sem medo de ser considerada arrogante que estou fazendo isso brilhantemente.  Quando o racista, sempre franco-atirador, mira e atira em meu peito, eu que aprendi com o próprio a me adiantar em seu terreno, já transferi meu coração para outra posição. O branco racista ou antirracista jamais saberá, ao certo, para onde eu transferirei o meu coração, afinal, o território do meu corpo é vasto e, ao contrário do que pensam, é infinito, pois fui treinada eu o treino cotidianamente, em leis universais, energia pura em estado de graça, amor e sabedoria infinita. Eu posso falar pela Literatura Negro-brasileira do Encantamento Infantil e Juvenil (LINEBEIJU) que enquanto pesquisadora e teórica tenho construído esse fragmento dentro das epistemologias negras. Essa Literatura que tenho vivido visceralmente sei, a partir de seus marcadores apontados por mim que sim, são capazes de salvar vidas negras e de forma atemporal, isto é, independente da idade.  Minha literatura fala com as pessoas, sensivelmente toca as vidas das pessoas, estrategicamente salva as vidas de crianças, jovens e adultos negros/as, pois é um processo dado de dentro para fora, mergulho protegido pela Ancestralidade Africana que sabiamente, só constrói pontes, une mundos e ritualiza vidas sempre sagradas, com a sabedoria de nós ensinar a criar um contra-corpo necessário para vivermos em sociedades racistas, entendendo a necessidade de apoiarmos a criança a criar e entender seu corpo-templo-resistência, afinal resistir às barbáries, também é sagrado.

Joacles Costa:  Como foi sua experiência em visitar o Senegal?    
Kiusam de Oliveira: Eu visitei Dakar e a Ilha de Goré. Lá escrevi, assim que cheguei na ilha, a primeira parte do meu premiado livro O Mar que Banha a Ilha de Goré e significou o sonho realizado que dignificou toda a minha trajetória de vida na militância antirracista antes de lá pisar e (res)significou toda a minha jornada de vida. Para certas experiências não existem palavras capazes de traduzi-las: essa é uma delas. Lá, um dia ao amanhecer, fui ao mar me banhar e fazer as minhas rezas costumeiras à Iemanjá. Após 10 minutos de reza, abri os olhos e me vi ao lado de um tubarão que julguei bebê, dormindo. Eu me assustei. Tentei não me desesperar para sair da água e fui, com o coração na boca, me mexendo vagarosamente até que vi seus olhos se abrindo lentamente. Ele me olhou e se assustou comigo e foi quando ele agitou seu corpo mudando a posição dele rumo o fundo do mar: ele, nadou correndo para o fundo do mar e eu, para a beira-mar. O que aprendi com essa vivência? Que o inusitado está à espreita em qualquer lugar e tudo pode acontecer em qualquer fragmento de segundo com quem carrega o Encantado. Repito: o Encantamento é da ordem do mistério e a lógica não tem como aprisionar a natureza encantada. Simples assim.

Título: O BLACK POWER DE AKIN
Autor: Kiusam de Oliveira


                                                    
A tristeza invadiu o coração de Akin, jovem negro de 12 anos, que cobre a cabeça com um boné ao ir para a escola. Ao seu avô, Dito Pereira, ele não conta que tem vergonha do seu cabelo, motivo de chacota dos colegas. Antes que Akin tome uma atitude brusca, o sábio avô, com a força das histórias da ancestralidade, leva o neto a recuperar a autoestima. Agora confiante, Akin ergue seu cabelo black power e se sente um príncipe. Além do prefácio assinado pelo rapper Emicida, O black power de Akin tem projeto gráfico e ilustrações que incorporam referências da ancestralidade em linguagem contemporânea de arte digital, criados pelo designer Rodrigo Andrade.

Idioma: Português
Encadernação: Brochura
Formato: 20 x 27
Páginas: 40 páginas
Ano de edição: 2020
Edição: 
Preço: R$ 46,00
Onde comprar: clique aqui

Leitura Em Dia: 
O que você está lendo no momento? Eu estou lendo o romance histórico de Oswaldo Faustino chamado "A Legião Negra: a luta dos Afro-brasileiras na Revolução Constitucionalista de 1932, da Selo Negro Edições. Incrível!

Revisão de Texto: Max Maciel

O artigo publicado é de inteira responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam as ideias ou opiniões do site EMDIAES.
 
 
 

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