315 30/08/2020 às 11:12 - última atualização 06/09/2020 às 14:55

Coluna: J. Nunes | “A gente começa lendo a si próprio, ..., com pouco estamos tendo uma compreensão melhor da cidade e do mundo”

Redação Em Dia ES

Nada adianta se o professor não transmitir para o aluno aquilo que o livro significa para ele, o professor
J. Nunes A gente começa lendo a si próprio, com pouco estamos tendo uma compreensão melhor da cidade e do mundo
Pedro José Nunes nasceu em Ibitirama, ES, em 1962. Nesse mesmo ano, a  família dele retornou para São José do Calçado (Espírito Santo) e lá ele residiu até os 19 anos, quando se mudou definitivamente para Vitória. Professor Formado em Letras pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo). É sócio do IHGES - Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e membro da Academia Espírito-santense de Letras e da Academia Calçadense de Letras.

Acompanhe abaixo a entrevista com escritor Pedro José Nunes

Joacles Costa: Quais são as suas publicações?
Pedro José Nunes: Aninhanha (romance, 1992), Vilarejo e outras histórias (contos, 1992),Menino (romance, 2000),A pulga e o jesuíta (literatura infantojuvenil, 2010), A tarde dos porcos (literatura infantojuvenil, 2011), Secri: Serviço de Engajamento Comunitário (história, 2011), Parque Moscoso: um parque centenário (documentário em DVD, 2012), Igreja e Residência Reis Magos: obra jesuítica em Nova Almeida (história, 2012); A última noite (contos, 2015); O tapete de Zezé (literatura infantojuvenil, 2016). Participação em antologias:Jovens contos eróticos (1987), Mulheres: diversa caligrafia (1997) e Na livraria: diversa caligrafia (2015), entre outras.

Joacles: Como trabalhar o conteúdo de leitura com o professor durante a formação em serviço para que ele forme a contento leitores e escritores?
Pedro: Nada adianta se o professor não transmitir para o aluno aquilo que o livro significa para ele, o professor. Para isso é preciso que tenha na sua vida privada, quando está longe da sala de aula, uma relação verdadeira com a leitura. Eu não creio que seja possível transmitir essa paixão com um discurso da boca para fora. Senão a transmissão soa falsa. O aluno não é besta. Se o professor tem vínculo de afeto com a leitura e passa isso de forma natural, certamente ele terá êxito na formação do leitor. Nosso tempo é muito urgente, mas é possível ensinar ao aluno que não se leem apenas livros. A gente começa lendo a si próprio na relação com a família, lê os nossos vizinhos, o nosso bairro, com pouco estamos tendo uma compreensão melhor da cidade e do mundo. A partir daí fica evidente que podemos atravessar fronteiras, as geográficas e as culturais lendo autores de lugares distantes, as temporais lendo autores de outras épocas. São tantas as possibilidades. Certa feita eu disse a um aluno que não gostava de ler, mas que gostava de cinema, que por trás de um filme quase sempre há literatura, e que, ao assistir a um filme, ele praticava a leitura. Ele parece ter ficado feliz.

Joacles: Fora a formação, que fatores podem aproximar o docente da leitura?
Pedro: Frequentemente tive alunos adultos. Muitos deles relatavam que gostariam de ter o hábito da leitura e me perguntavam o que poderia ser feito a respeito. Eu lhes dizia que o primeiro passo era desejar, e, havendo desejo, que procurassem um assunto em que tivessem grande interesse. Eu obtive algum êxito, e não era incomum encontrar ex-alunos comunicando a alegria em estar, devagarzinho, lendo alguma coisa. Eu confesso que esse é um assunto muito complexo. A falta de leitura entre nós é aterradora. Eu me formei em Letras pela UFES e fiquei surpreso com a quantidade de colegas de Letras, de Letras, frise-se, que não gostavam de ler. 

Joacles: É preciso saber as características de todos os gêneros para ensiná-los?
Pedro: Sim, se a aula tem a ver com teoria literária. Um leitor comum não precisa desses conceitos, ele passa muito bem em sua prática de leitura sem precisar disso. Eu penso que é um conhecimento que deve ser transmitido, mas não da forma como, por exemplo, eles foram transmitidos a mim: como um conhecimento fechado e com cobrança na prova. Eu reli vários dos clássicos que fui obrigado a ler no ginasial e, ao contrário do que ocorrera na primeira leitura, obrigatória, com cobrança na prova, eu encontrei grande prazer em lê-los sendo um leitor livre. 

Joacles: Essa relação do docente com a leitura deve ser trabalhada em momentos específicos da formação? 
Pedro: A formação do leitor é no dia a dia da sala de aula e também fora dela. Quantos professores você conhece que chegam à sala de aula com um romance que esteja lendo, o marcador na página onde interrompeu a leitura? Ora, se eu digo a um aluno que a leitura é interessante, eu devo também sentir isso. E provar. 

Joacles: Como fazer para estimular o professor e envolvê-lo nesse aprendizado? Os professores falam muito sobre a necessidade de analisar os textos bem escritos para que um aluno compreenda o que é escrever bem. Qual é importância desse procedimento? 
Pedro: O hábito da leitura não se forma de uma hora para outra. É preciso um longo investimento nesse sentido, já quando a pessoa começa a dominar a leitura e a escrita. Se o professor não tem o hábito da leitura, talvez se possa estimulá-lo, mas não é garantia de que de uma hora para outra ele vai passar a ler e consequentemente a transmitir essa paixão pela leitura a seus alunos.
Um texto bem escrito não é um texto necessariamente escrito no padrão formal da língua. Esse estrato da língua só existe na sala de aula ou em provas de Português em concursos públicos. No cotidiano, a língua é bem outra. Conhecer a língua tem suas vantagens, mas um texto bem escrito, para usar a sua terminologia, é um texto que transmite com eficácia e clareza uma mensagem.

Joacles: Como melhorar esse cenário?  É possível estipular um tempo para perceber os avanços do professor em relação ao ato de leitor? 
Pedro: É preciso investir na formação de professores leitores, é preciso insistir nisso. Creio que se deva investir também num maior domínio da língua, afinal é com as palavras que todos os conhecimentos são transmitidos. Apesar de gostarmos da liberdade em relação à norma padrão, as críticas são muito comuns quando a pessoa comete erros de Português. As palavras, gostemos ou não, são nossa maior aquisição. Nenhum outro animal as domina. As palavras, quando bem empregadas, exercem poder e fascínio. Um professor precisa fascinar seu aluno. Ele está na frente da sala inclusive para servir de influência. Ser professor é uma responsabilidade muito maior do que se possa imaginar.

Joacles: E os alunos? O que devem fazer para serem bons produtores de texto?
Pedro: Eu sempre disse a meus alunos de redação oficial (sim, eu fui professor de redação oficial) que escrever é prática. É como caminhar. Ou tocar um instrumento. É preciso começar a escrever, dominar a construção da frase e persistir escrevendo. Certa feita um aluno me disse que odiava análise sintática. Eu disse a ele: “Você tem razão. Mas você não precisa odiar. Essa palavra tem um sentido muito forte. Existe uma forma bem agradável de você se deixar envolver pela sintaxe: lendo. Se você não acredita, leia em voz alta. Em pouco tempo você estará dominando a sintaxe sem precisar analisá-la. E isso vai se refletir no seu texto.” 

O tapete de Zezé
O tapete de Zezé é meu segundo livro dedicado ao leitor infantojuvenil, o primeiro foi o livro A pulga e o jesuíta, premiado com o Prêmio Secult de Literatura Infantojuvenil de 2010, livro que já alcançou duas edições. Este é um livro sobre leitura, e de como é possível voar num tapete em companhia dos livros. E é justamente de como voou num tapete mágico que um adulto, que conta a história, vai tecendo o conto – bem à moda de um tapete de retalhos – para uma atenta interlocutora, a gentil, curiosa e exigente menina Pietra. O livro O tapete de Zezé, publicado com o patrocínio da Lei Chico Prego da Prefeitura Municipal da Serra, com apoio da CMI Services e Arcelor Mittal, foi ilustrado por Frederico Vescovi Leão, com quem já tive uma parceria quando da publicação do romance Menino no projeto Nosso Livro.



Pedro J. Nunes é criador e responsável pela manutenção do site tertuliacapixaba.com.br que é  dedicado exclusivamente à literatura produzida no Espírito Santo. O site Tertúlia pretende contribuir para que os livros produzidos no Espírito Santo alcancem a divulgação que merecem e que seus autores sejam conhecidos do público leitor local. O site oferece material de pesquisa, informações sobre eventos literários e lançamentos, intercâmbio com escritores e entre os usuários do site, pretendendo ser um meio de comunicação entre escritores e leitores, contando os usuários com links de acesso a páginas de redes sociais e formulário de contato.  O site Tertúlia é de utilidade pública e não possui fins lucrativos.

Minha Leitura Em Dia: Estou lendo “Novos contos da montanha, de Miguel Torga; “Antes delfin, de Ernesto Sabato e “O negócio dos livros, de André Schiffrin.”

Livro mais recente: O tapete de Zezé
Autor: Pedro J. Nunes
Ano: 2016
Assunto: Literatura Infantojuvenil
Páginas: 36
Preço: R$ 35,00
Editora: Arte da Cura
Onde comprar: Livraria do Estudante, Papelaria Mr. Papper e site do autor: www.pedrojnunes.com.br
 
 
 

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