540 05/07/2020 às 11:26 - última atualização 22/08/2020 às 12:25

Coluna: “...Eu não diria que escolhi escrever ou fazer literatura. Na verdade, é a literatura que te escolhe..."

Por Joacles Costa

Redação Em Dia ES

wladimir Cazé. Eu não diria que escolhi escrever ou fazer literatura. Na verdade, é a literatura que te escolhe. Foto: divulgação
Saudações renovadas.

Nossa personalidade de hoje é o escritor Sérgio Wladimir Cazé dos Santos. Pernambucano, nascido em Petrolina no dia 22 de Setembro de 1976. Doutorando em letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Federal do Espírito Santo. Possui mestrado em letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Federal do Espírito Santo (2016) e graduação em Comunicação Social: Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (1998). Atualmente é também graduando do curso Letras Português-Espanhol da Universidade Federal do Espírito Santo. Tem experiência nas áreas de Jornalismo e Letras, com ênfase em Literatura Hispano-americana e Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: poesia, conto, tradução literária.

Desde criança, Cazé sempre teve muito contato em casa com livros, revistas e jornais, proporcionado pelos pais e tios, e o interesse pela leitura e pela escrita surgiu naturalmente. Depois de muita leitura de gibis, da coleção Vagalume e de Monteiro Lobato, no fim da infância, descobriu no começo da adolescência o Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. E logo passou para Dom Casmurro, de Machado de Assis, para a poesia de Manuel Bandeira, para Rubem Fonseca, etc. 

Joacles Costa: Quando começou a escrever e por que escolheu essa área?

Wladimir Cazé: Eu não diria que escolhi escrever ou fazer literatura, porque essas coisas não se escolhe. A pessoa começa fazendo isso por alguma necessidade de se expressar pela escrita. Na verdade, é a literatura que te escolhe. No meu caso, lembro de começar a escrever histórias em quadrinhos, por puro exercício lúdico, e de em algum momento passar a escrever textos mais longos, mas sem maiores pretensões a não ser me divertir. Tudo nasceu daquelas leituras iniciais, na infância, e com o tempo se tornou algo mais sério e fundamental, levando-me a escolher a profissão de jornalista.

JC: Quantos livros você tem publicado, quais são:?

WC: Publiquei os livros de poemas Microafetos (2005), Macromundo (2010) e Minividas (2018). Também publiquei dois folhetos de cordel, A fiilha do Imperador que foi morta em Petrolina (2004) e ABC do Carnaval (2009).

JC: Você tem alguma referência literária nos clássicos brasileiros?

WC: Claro. A literatura brasileira é uma das mais vigorosas dos últimos 150 anos no mundo. Gosto de Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barros, Murilo Mendes, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos, Antônio Torres, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Ubaldo Ribeiro, João Gilberto Noll, Haroldo de Campos, só para mencionar alguns poucos. E também admiro artistas de outras áreas que podem ser considerados clássicos, como os compositores Heitor Villa-Lobos e Tom Zé e o cineasta Glauber Rocha.

JC:  Você acha que um escritor precisa se fazer reconhecido?

WC: Como nasci num Estado (Pernambuco), venho de outro (Bahia) e já morei num terceiro (São Paulo), além do Espírito Santo, refiro não tratar especificamente da questão do reconhecimento do “escritor”. Em qualquer um desses lugares, penso que o desafio maior é o mesmo: fazer o texto literário chegar a seus potenciais leitores ou ouvintes interessados. Daí vale recorrer a todos os meios disponíveis, como, por exemplo, a internet, áudios, vídeos, os saraus e leituras públicas e a participação em eventos escolares, acadêmicos e midiáticos.

JC: A Obra literária de um escritor pode mudar a vida do leitor?

WC: Para mim, o grande lance da poesia é provocar uma certa desautomatização da língua e da linguagem e, com isso, permitir lançar novos olhares sobre as coisas e o mundo. Ao subverter o que o fascismo da língua nos “obriga a dizer” (diria o crítico Roland Barthes), liberando a linguagem para dizer coisas novas e nos fazendo enxergar diferente, a poesia faz emergir um tipo de pensamento que, sendo imprevisível, tem um caráter político, de contestação da evidência imediata, de subversão do óbvio. É claro que, hoje, mais do que nunca, o próprio fato de escrever poesia já é por si só uma ação política. Agora, pensando de forma mais modesta, gostaria que quem me lê possa, durante a leitura, “escutar” os ruídos que tento criar com as palavras, os barulhos que, mais do que dizer algo que tenha um sentido preciso, pretendem expressar sensações, emoções e percepções, numa acepção até musical dessas palavras.

JC:  Nos dias de hoje é possível sobreviver da escrita?

WC:  Primeiramente, não recomendaria a ninguém começar a fazer literatura com a intenção de fazer dinheiro ou de sobreviver dessa atividade. Isso implicaria numa relação profissional com a escrita literária, o que não é uma realidade para a imensa maioria das pessoas que se dedicam a ela (inclusive para mim). O importante é fazer literatura porque se gosta e porque se tem uma necessidade imperativa de expressão; os resultados estéticos, práticos, comerciais e financeiros que possam vir daí são imponderáveis, imprevisíveis. Se eles vierem de forma positiva, ótimo. Mas não me parece que sejam um ponto de partida ideal para a criação literária. Em segundo lugar, para quem quer escrever, recomendo ler muito. Ler de tudo: ficção, poesia, ensaio, teatro. Ler e reler autores de vários lugares, épocas e estilos, dos antigos e clássicos aos contemporâneos, para ir, pouco a pouco, identificando suas preferências e afinidades. Também acho importante ler muita crítica literária, para entender as várias possibilidades de interpretação de uma mesma obra. Por fim, recomendo que, antes de escrever, o candidato a autor viva experiências reais e tenha contato com a realidade humana ao seu redor. É importante não só ficar lendo e escrevendo, mas sair de casa, ver a cidade, conhecer pessoas diferentes de seu círculo próximo. Aos poucos, se lapida um gosto, um estilo e um perfil.

JC: Qual o seu trabalho mais recente? 

WC: No final de 2018, lancei pela editora capixaba Cousa meu terceiro livro de poemas, Minividas, que reúne textos escritos a partir de 2016. O livro apareceu depois de um longo intervalo em que quase não escrevi e criei literatura, mas que foi uma fase de muitas leituras e estudos, em que também comecei a fazer tradução literária (de poesia ou prosa de autores latinoamericanos contemporâneos). Foram dois anos trabalhando nos poemas de Minividas, que se transformaram no meu livro escrito em menos tempo, mas que carrega a gama de experiências e aprendizagens que tive nesse intervalo de 9 anos depois da publicação do livro anterior, em 2010. São poemas escritos com um sentido de urgência, para serem lidos no momento melancólico de final de década que vivíamos, enquanto país, quando escrevi o livro, e que só fez se agravar nos últimos dois anos. Ao acompanhar as notícias do Brasil e do mundo, senti necessidade de fazer algo rápido e intenso, um grito, uma mensagem na garrafa, antes de recomeçar tudo do zero. Antes eu buscava escrever uma poesia antilírica, ou seja, de emoções contidas, com ideias abstratas e sem a presença do eu subjetivo, e mais interessada em falar de sensações, percepções, ideias, observações concretas. No final de 2016, comecei a escrever uma safra nova de poemas em que alguma coisa da linguagem anterior se mantém, mas agora existe a presença do eu, do indivíduo em diálogo com o mundo exterior, além de abordar algumas de nossas crises atuais, inclusive as políticas. Em Minividas, também preocupei-me muito com a oralidade dos versos, com a sonoridade das palavras e os ritmos dos textos, com a forma como esses poemas poderiam ser lidos em voz alta. Nos meus livros anteriores esse aspecto do poema era de certa forma desconsiderado e havia uma outra preocupação, mais com a visualidade do poema na página.



Minha Leitura Em Dia? Grande sertão: veredas - João Guimarães Rosa – Ed. José Olympio Editora
Livro: Minividas
Autor: Wladimir Cazé
Ano: 2018
Assunto: Poemas
Páginas: 56 pg.
Preço: R$ 34,00
Editora: Cousa
Onde Comprar: Ed. Cousa (27) 99956-0277  |  e-mail: editoracousa@gmail.com

Revisor de Texto: Max Maciel

O artigo publicado é de inteira responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam as idéias ou opiniões do site EMDIAES.
 
 
 

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