264 01/11/2020 às 14:09 - última atualização 08/11/2020 às 12:45

Coluna: Coutinho | “Enquanto Houver Racismo, Não Existirá Democracia!”

Por Joacles Costa

Redação Em Dia ES

A Revolta do Queimado é um evento que sempre foi alvo do meu interesse
Coutinho Enquanto Houver Racismo, Não Existirá Democracia
A escritora Lavínia Coutinho Cardoso é Graduada em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (1993) e Especialista em História Política (2003) e Mestre em História Social das Relações Políticas (2008) pela mesma instituição. Especialista em Educação e Mídias pela Universidade Federal de Ouro Preto (2018). Professora de história da Prefeitura Municipal de Vitória e professora pesquisadora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros NEAB/UFES. É parte do Grupo de estudos Religrafo/NEAB que pesquisa "Religiões de Matriz Africana”. Tem publicações na área de educação, história do Brasil: escravidão e liberdade no século XIX, Religiosidade Africana no Brasil, políticas afirmativas na Universidade.

É autora do livro Revolta do Queimado, considerada a mais significativa revolta escrava do estado do Espírito Santo, que foi publicada no ano de 2020 pela Editora Appris. Atualmente pesquisa e escreve sobre narrativas de construção do movimento de mulheres negras no Espírito Santo e no Brasil. Atua como professora de cursos de formação de Professores sobre educação para relações étnico-raciais e história das religiões de Matriz Africanas no Brasil.

Acompanhe a entrevista com a escritora Lavínia Coutinho Cardoso

Joacles Costa: Como e quando se dá o seu primeiro contato com a escrita?
Lavínia Coutinho: Foi na graduação que fiz minha primeira escrita diligente, na época foi escrita à mão ainda, pois os computadores ainda não estavam popularizados (anos 90), na UFES só existiam alguns laboratórios.

Joacles Costa: Quais são os principais fatores que te levaram a escrever Revolta do Queimado?
Lavínia Coutinho: A Revolta do Queimado é um evento que sempre foi alvo do meu interesse, minha militância no movimento negro e meu contato com o professor Cleber Maciel, que foi meu orientador na Iniciação cientifica ainda na graduação, falava sempre da revolta como algo muito significativo e que precisava ser revista por uma escrita de um autor (a) negro (a). Quando me interessei pelo mestrado logo pensei em fazer essa escrita, a partir de novos parâmetros epistêmicos.

Joacles Costa: Como você divulga o seu trabalho? 
Lavínia Coutinho: Tenho divulgado através das redes sociais e nos grupos de pesquisa das quais faço parte.

Joacles Costa: Quais os principais alicerces para a construção do processo político na luta pela liberdade? 
Lavínia Coutinho: O principal é aquele que denomino “sincopa libertária”, que se constituem em espaços do improviso, onde acontece a construção de uma micro política. Essa é determinada pelo protagonismo dos negros escravizados na busca pela liberdade.

Joacles Costa: Por que é importante, política e socialmente, que a população afrodescendente, no Brasil, conheça e valorize suas origens e raízes?
Lavínia Coutinho: Somos a maioria da população, então é fundamental que nós sejamos vistos como somos realmente, é só quem pode, e quem deve dizer quem somos, somos nós! A partir disso podemos valorizar e promover a saúde da população negra: emocionalmente, espiritualmente, economicamente, fisicamente e mentalmente, promovendo na nossa comunidade “o bem viver “e uma cidadania plena.

Joacles Costa: Quais você acredita serem os caminhos para uma sociedade com menos desigualdade racial?   
Lavínia Coutinho: Lógico que esse trabalho não é algo pequeno. Ele deve ser realizado por toda a sociedade e na construção e efetivação de políticas públicas que caminhem em duas direções: a reparação histórica desconstruindo o racismo estrutural, a outra que se dá no fortalecimento da instituições democráticas inserindo em todas as áreas da administração pública a questão racial como algo prioritário, combatendo o racismo institucional.  Enquanto houver racismo, não existirá democracia!

Título: Revolta do Queimado

Autor: Lavínia Coutinho Cardoso

Revolta do Queimado é resultado da construção de processo político de conquista da liberdade, em busca da carta de alforria. As variadas formas de resistência negra à escravidão, como fuga, formação de quilombos, assassinato de senhores e as revoltas, revelam-nos as contradições existentes na sociedade do século XIX. Mesmo na condição de cativos, no século XIX, os negros paulatinamente foram conquistando alguns espaços de liberdade, a terem, inclusive, uma hierarquia informal entre eles, com lideranças capazes de arregimentar pessoas para o trabalho e de negociar com as autoridades locais, quer fosse sacerdote da igreja católica quer fosse seu senhor. A rede de ações que antecede ao dia 19 de março de 1849 se traduz no que denominamos sincopa libertária, na medida em que estabelece uma negociação pela liberdade, nos espaços de improviso do cotidiano, e exercita o diálogo como forma de fazer ou de promover políticas emancipatórias. A libertação em troca dos préstimos na construção de uma igreja católica e a negociação diante do impasse criado pelo pároco resultaram em uma ação violenta, por parte dos escravos, como meio de garantir a liberdade. Isso acabou por culminar na prisão e na fuga dos negros, diante da ação das forças repressoras da polícia local. Para os escravizados do Queimado, esse fato significou possuir a Carta de Alforria, ou seja, sair da condição jurídica de cativo para se tornar dono de sua liberdade, nos termos do que esta significa no séc. XIX.

Idioma: Português
Encadernação: Brochura
Páginas: 135 páginas
Ano de edição: 2020
Editora: Appris
Preço: R$ 39,90

Leitura Em Dia: O que você está lendo no momento?
No momento estou lendo autoras e escritoras negras para a pesquisa que estou desenvolvendo: algumas dessas autoras: Patricia Hill, Sueli Carneiro e Winnie Bueno, todas intelectuais negras que escrevem sobre feminismo negro e racismo.  E de literatura terminei de ler Um defeito de cor de Ana Maria Goncalves, lendo a poetiza negra June jordan, que descobri a pouco tempo, agora nesse momento estou lendo de Octavia E. Butler "Kindred" que foi presente de uma grande e querido amigo.

Revisão de texto: Max Maciel

O artigo publicado é de inteira responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam as idéias ou opiniões do site EMDIAES.
 
 
 

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