Luis Frechiani

Por Luis Frechiani

Mestre em Economia e Professor. Consultor de Projetos na PHD Tecnologia em PEAD e na Odrill Engenharia, atuando nos setores de Saneamento, Petróleo e Gás.

Por Luis Frechiani

Mestre em Economia e Professor. Consultor de Projetos na PHD Tecnologia em PEAD e na Odrill Engenharia, atuando nos setores de Saneamento, Petróleo e Gás.

O comércio internacional pós pandemia

Somos quase 8 bilhões de seres humanos habitando o planeta terra, sendo que 18 % estão na China. Em 2019, o Produto Interno Bruto Mundial se aproximou dos US$ 85 trilhões e, deste montante, as exportações representaram US$ 18 trilhões, com destaque para os US$ 2,6 trilhões em produtos Made in China que circularam nos demais países do globo.

As previsões da Organização Mundial do Comércio (OMC) não são animadoras para o comércio internacional que, tanto em 2020 quanto em 2021, deverá sofrer uma forte retração. A OMC trabalha com dois cenários para 2020, no qual o otimista prevê uma retração de 12,9% e o pessimista projeta uma queda de 31,9%. O Fundo monetário Internacional (FMI), também tem projeções negativas para o PIB mundial, que poderá sofrer, em 2020, uma queda de 2,5% a 8,8%. 

Em função das particularidades desta crise econômica, cuja origem foi um surto sanitário que se transformou em pandemia, a recuperação econômica mundial  dependerá, principalmente, do prazo de duração da crise pandêmica para que as políticas macroeconômicas, adotadas pelas maiores economias do planeta, possam apresentar resultados positivos e recuperar os níveis de produção e os empregos perdidos durante a crise. Uma vez superada esta crise sanitária-econômica, coloco em tela duas questões:

1)A Guerra comercial entre os Estados Unidos e a China continuará?
2)As tensões são apenas comerciais? 

Acredito que esta rivalidade comercial ditará os rumos do comércio internacional e da geopolítica, podendo surgir novas e antigas práticas protecionistas, principalmente nos Estados Unidos, onde a histórica frase de Abraham Lincoln poderá ser ressuscitada:

“Eu não entendo muito de tarifas alfandegárias. Mas o que sei é que, quando compro um paletó na Inglaterra, eu fico com o paletó e a Inglaterra com o dinheiro. Mas se eu compro um paletó aqui no meu país, eu fico com o paletó e os Estados Unidos ficam com o dinheiro”

Agora, o inimigo comercial não é a Inglaterra, mas a China e, o presidente Trump tem sinalizado que é necessário rever a política industrial norte americana para estimular a produção doméstica de produtos considerados estratégicos  para não depender de poucos fornecedores internacionais, podendo elevar as tarifas alfandegárias e/ou criar subsídios para atrair empresas para os setores estratégicos.

Portanto, a Organização Mundial do Comércio (OMC) será de fundamental importância para solucionar os novos desafios do comércio internacional e evitar o ressurgimento do vírus xenofóbico, cujo principal efeito colateral poderá ser a desglobalizaçao produtiva.

Mundo Made in China

A semana de 21 a 28 de fevereiro de 1972, ficaria conhecida, com a viagem do Presidente Richard Nixon e sua comitiva, arquitetada por Henry Kissinger, à China de Mao Tse Tung, como “a semana que mudou o mundo”.

Não se sabe exatamente o que Nixon e Mao conversaram, mas, a partir deste encontro, a história econômica mundial tomou um novo rumo, alterando as forças da geopolítica, em especial a da Guerra Fria, aproximando a China da órbita norte americana. É importante ressaltar que, nesta viagem, a hegemonia dos Estados Unidos já estava fragilizada, pois Nixon havia suspendido, em agosto de 1971, a conversibilidade do dólar em ouro, destruindo um dos pilares fundamentais da conferência de Bretton Woods e o seu papel de líder internacional.  Neste sentido, a década de 70 foi bastante turbulenta e diversos pesquisadores tentaram identificar indícios de qual país ou grupo de países poderia substituir os Estados Unidos como hegemon mundial, dentre os quais destaco o sociólogo italiano Giovanni Arrighi 

Com a Morte de Mao Tse Tung, o sucessor Deng Xiaoping, promoveu, a partir de 1978, mudanças estruturais significativas, dando início ao processo de transição econômica, no qual governo chinês intensificou os investimentos em infraestrutura e na industrialização, reestruturou a indústria Estatal, fechando e privatizando empresas. No front externo, promoveu a abertura comercial, estimulou a participação dos investimentos estrangeiros diretos e institui as Zonas Econômicas Especiais, que se tornaram, rapidamente, plataformas de exportação de produtos com preços extremamente baixos.

Essa estratégia do Governo Comunista Chinês apoiou-se nas parcerias com o capital externo e na fixação de uma taxa de câmbio bastante desvalorizada e competitiva, fixada, em 1994, pelo Banco popular da China (BPC) em 8,3 Yuans por US$ 1,00, contribuindo para o rápido crescimento das exportações chinesas, gerando sucessivos e crescentes superávits comerciais. O mundo passou a ser inundado de produtos Made in China, fazendo com que a sua participação no comércio internacional crescesse tanto ao ponto de ocupar, desde 2008, a primeira posição no ranking mundial de exportação. Enquanto isso, o governo, através dos planos quinquenais, realizava os investimentos em infraestrutura e logística intermodal necessários para tornar-se uma superpotência econômica. Esses elevados investimentos geraram demanda por diversos produtos, com destaque para as commodities petróleo, minérios, soja, carnes etc., que tiveram os seus preços bastante elevados.

Nos anos de 2000, a China já era considerada líder regional e com relativa influência econômica no Extremo Oriente, enquanto os Estados Unidos tentavam, a partir do 11 de setembro de 2001, deflagrar a sua última cartada para manter a hegemonia  mundial, recolocando-os na rota das guerras imperialistas para tentar controlar, com a invasão do Iraque,  as reservas de petróleo do mundo. Esta iniciativa, aumentou o déficit público e a dependência financeira do império, em relação às potências ascendentes e, coube à China, o papel de grande comprador dos títulos da dívida dos Estados Unidos, tornando-se, atualmente, o maior detentor dos títulos da dívida norte americana.

A política cambial do BPC tem sofrido muitas pressões externas, principalmente por parte dos Estados Unidos, que a consideram uma das responsáveis pelo enorme déficit comercial norte americano. Mas desde 2017, quando o presidente Donald Trump assumiu e iniciou a guerra comercial contra a China, preferiu  travar uma guerra tarifária para diminuir, mais rapidamente, o déficit comercial com a China, que  até novembro de 2019,  caiu US$ 60 bilhões em relação ao ano anterior, girando em torno de US$ 360 bilhões, mas com uma perda no comércio bilateral de aproximadamente de US$ 100 bilhões.

Talvez seja temerário afirmar que Nixon e Kissinger, assim  os representantes de sindicatos, os empresários e os demais políticos norte-americanos, não tenham percebido que  a aproximação diplomática e comercial levaria à fuga de produção de diversos bens de consumo do Tio Sam para as terras do Camarada Mao Tse Tung,  levando o presidente Trump a promover a uma guerra comercial. Parecia que os Yankees levariam vantagem na disputa, mas uma crise sanitária na cidade chinesa de Wuhan e que se tornou uma pandemia, mudou completamente o cenário mundial.  Pode ser que, após esta crise sanitária e econômica, a China venha a exercer um novo papel na economia mundial, pois a crise de hegemonia norte-americana, segundo observações de Giovanni Arrighi (Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. SP. Boitempo. 2008), não se refere apenas à perda de credibilidade de sua posição como força invencível ou à sua débâcle econômico-financeira. O american way of life, que sustentou o consumismo da maior economia do mundo e a admiração de populações de vários países, aparece como o grande responsável pela devastação ecológica de nosso tempo. A mensagem final de Adam Smith em Pequim refere-se a essa questão, na qual, o mundo capitalista precisa se transformar, conforme sentenciou Giovanni Arrighi:  

"o fato é que nem mesmo um quarto da população da China e da Índia pode adotar o modo norte-americano de produzir e consumir sem matar por sufocação a si mesmo e ao resto do mundo"(página 392).  

Portanto, a consolidação da hegemonia mundial chinesa dependerá, principalmente, das decisões de como gerenciar e respeitar os limites impostos pelo nosso planeta, no que tange a continuidade da utilização, em sua matriz energética, das fontes de recursos naturais não-renováveis.

Autores:
Luis Frechiani é Mestre em Economia e Professor
Renata Moreira Frechiani é Mestre em Economia e Professora

Orçamento de Guerra no Brasil: o IGF e o compulsório

Cidadãos brasileiros, que nasceram após a segunda guerra mundial e que estão vivos até o momento, nunca conviveram com situações de economia de guerra e nem com pandemia, tal como a que se iniciou, em 1917, no Kansas-EUA  e se alastrou para a Europa, onde ganhou o nome de gripe Espanhola e matou, no mundo,  de 50 milhões de seres humano.  

Mas com a chegada do Covid-19 ao Brasil, coube ao ministro da Saúde alertar a população e propor ações emergências recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para tentar evitar o colapso do nosso sistema de saúde e reduzir a taxa de letalidade da pandemia. Da mesma forma que em outras cidades do mundo, o isolamento social trouxe sérios problemas econômicos para o governo que, na tentativa de acalmar empresários e trabalhadores, editou uma medida provisória (MP da morte) com propostas consideradas absurdas e insuficientes para a maioria dos congressistas, obrigando o Presidente Bolsonaro a recuar. Este fato abriu espaço par o congresso elaborar um novo projeto de lei, aprovado no dia 30/03, que institui uma série de medidas, com destaque para a criação do Voucher de R$ 600,00 para os trabalhadores informais/autônomos e MEIs durante 3 meses. 

O pagamento deste voucher e as demais medidas anunciadas pelo governo federal, inclusive com a edição da MP 936 (MP da Sobrevivência), comprometerão a meta do déficit primário previsto para este ano, cujo teto era de até R$ 124 bilhões. No entanto, estamos em uma situação de economia de guerra, sem que precisemos de tanques, porta aviões, aviões e mísseis para enfrentar o inimigo invisível que nos amedronta, nos enclausura e pode dizimar milhões de vidas, empregos e de empresas. 

Esta situação de guerra, exigirá um esforço adicional de recursos, podendo elevar o déficit primário para valores acima de R$ 420 bilhões, sem o risco de cometer crime de responsabilidade, pois o congresso acatou o pedido do governo federal de situação de calamidade. Porém, este custo adicional exigirá, agora e nos próximos anos, que o Governo federal utilize as prerrogativas, abaixo descritas, para financiar o presente esforço de guerra:

1)Imprimir papel moeda;
2)Emitir títulos públicos;
3)Aumentar impostos.

Sabe-se que cada uma das opções acima tem consequências, sendo que a primeira nos assusta pelo histórico de inflação, muito embora em uma situação de forte retração da economia com risco de uma depressão, ‘jogar dinheiro de helicóptero” é uma ação que tem tido apoio de muitos economistas. A segunda opção, elevaria a nossa dívida mobiliária que deverá se aproximar a 90% do PIB, mas, da mesma forma que a primeira, poderá ser utilizada no programa de Economia de Guerra do governo Bolsonaro. A última opção, aumentar impostos, nunca contou com o apoio dos empresários e dos cidadãos, pois a nossa carga tributária e considerada muita alta e com baixo retorno em serviços públicos fundamentais, tais como saúde, educação, segurança etc. 

No entanto, o momento parece muito oportuno para discutir um tema muito polêmico no Brasil: o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF).  O IGF foi criado na constituição de 1988 e há, no congresso, 04 projetos de lei para regulamentar o respectivo imposto. A nossa constituição diz que um novo imposto só pode valer a partir do ano seguinte à sua criação. Sendo assim, caso um dos projetos seja aprovado, ele não poderá ser cobrado a tempo de trazer recursos imediatos para a situação emergencial e, mesmo assim, os muitos senadores justificam a sua votação e aprovação pois, além de promover a justiça social, seria uma importante fonte de recursos para financiar os custos  futuros da pandemia. 

Segundo a Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco), há no Brasil 206 bilionários que possuíam, em 2019, 1,2 trilhão (quase 20% do PIB brasileiro). O senador Plínio Valério (PSDB-AM) apresentou, em 2019, o Projeto de lei complementar 183/19 que sugere a regulamentação do IGF com alíquotas de 0,5 a  0,75 % para patrimônio líquido entre 12 e 70 mil vezes o limite de isenção do imposto de renda pessoa física(IRPF) e de 1% para milionários com patrimônio superior a 70 mil vezes o limite de isenção do IRPF.  O projeto de lei complementar do senador, com arrecadação anual prevista de R$ 70 bilhões, se alinha às propostas da Fenafisco, para gerar fontes de recursos e financiar o enfrentamento da pandemia, compensar as perdas de receitas tributárias decorrente da crise econômica, socorrer o SUS e garantir renda para trabalhadores e camadas mais pobres da população. Ser for aprovada, sem qualquer alteração, o projeto do Senador Plínio Valério, geraria, como faz o ministro Guedes em suas apresentações, receita de R$ 700 bilhões nos próximos dez anos, número muito próximo do que ele divulgou para justificar a sua reforma da previdência.

No dia 26/03, a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), apresentou o projeto de lei 50/2020 que é mais audacioso, pois, além da criação do IGF, sugere a criação do empréstimo compulsório aplicado às grandes fortunas. O empréstimo compulsório é um instrumento constitucional permitido em circunstâncias emergenciais, tais como guerras ou calamidades públicas e a crise pandêmica provocou a decretação de estado de calamidade no país até 31 de dezembro de 2020, abrindo caminho para essa possibilidade. Ao contrário dos impostos, o empréstimo compulsório não precisa aguardar o ano seguinte para começar a valer e os valores arrecadados devem ser devolvidos no futuro.

O IGF e o compulsório sobre grandes fortunas estão previstos na Constituição Federal desde sua promulgação, mas necessita de uma lei que o regulamente. A Senadora Eliziane sugere uma alíquota de 4% aplicada sobre a mesma base tributária do projeto do senador Plínio, e o dinheiro seria devolvido a partir de 2021, utilizando o mesmo mecanismo de atualização dos valores do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). 

Reconheço que o tema IGF sempre foi um “tabu” e, se o congresso aprovar qualquer um dos projetos em tela, caberá ao Presidente Bolsonaro, em sua trincheira, a decisão de sancioná-lo e entrar para a história . Portanto, vetar ou não vetar, será um dilema Hamletiano. Eis a questão?


Autores:
Luis Frechiani é Mestre em Economia e Professor
Renata Moreira Frechiani é Mestre em Economia e Professora

Economia de Guerra

Os brasileiros que nasceram após a segunda guerra mundial nunca conviveram com situações de economia de guerra ( 1 e 2ª guerras mundiais) e nem com a gripe Espanhola, que se iniciou, em 1917, em Kansas-EUA e se alastrou para a Europa, Brasil e outros países, matando mais de 50 milhões de seres humanos. E com o intuito de resgatar parte deste período que não presenciamos, farei uma breve retrospectiva da economia mundial até a presente crise sanitária e econômica.

O sistema financeiro internacional foi regulamentado, no período que se estendeu do século XIX até a primeira guerra mundial, pelo padrão ouro libra esterlina. Esse padrão, em linhas gerais, fazia com que o preço da moeda britânica (taxa de câmbio) e dos países que aderiram ao acordo fossem fixas e lastreadas em ouro.  Após a 1ª guerra, alguns poucos países conseguiram retornar ao padrão-ouro, mas a grande depressão de 1929 trouxe, novamente, instabilidade ao sistema financeiro dos Estados Unidos da América.

A grande depressão de 1929 gerou uma série de falências de bancos e empresas de vários segmentos produtivos. As falências elevaram, de forma significativa, o desemprego, reduzindo brutalmente o consumo das famílias. A depressão econômica, por conta da forte retração da demanda agregada e do aumento da capacidade ociosa das indústrias, vem acompanhada de um gravíssimo problema macroeconômico: A deflação. Em uma situação de deflação, os agentes econômicos priorizam a liquidez (retenção de moeda), gerando uma forte queda na circulação da moeda e no volume de transações monetárias, agravando ainda mais a crise econômica. 

Este quadro, fez com que o, então presidente Hoover, que insistia em manter o padrão-ouro, perdesse a eleição presidencial para o democrata Roosevelt, que abandonou  o padrão-ouro (1933) e implantou o New Deal, com forte intervenção do Estado na economia, sendo o principal indutor da demanda agregada. As políticas de aumento dos investimentos, através dos gastos públicos, do Presidente Roosevelt apresentaram rápido resultado na economia norte americana que, com o início da segunda guerra mundial (1939-1945), contou com um impulso adicional. Ainda durante a segunda guerra mundial, o mundo capitalista se reuniu nos EUA, em 1944, para definir as novas regras para o sistema financeiro internacional, que foi reorganizado sob a égide dos poderes econômico, financeiro e político dos EUA. 

A conferência de Bretton Woods homologou o dólar dos EUA como meio de pagamento internacional, que passou a ser lastreado em ouro na paridade de US$ 35,00 por onça-troy de ouro, enquanto que as moedas dos demais países poderiam flutuar 2% (1% para cima e 1% para baixo), e caberia ao Fundo Monetário Internacional, criado nesta conferência, o papel de fiscalizar o sistema cambial e de socorrer os países que viessem a ter com problemas de pagamentos. Não podemos deixar de registrar a importância do Plano Marshall para reconstruir a Europa e a criação do Banco Internacional de reconstrução e Desenvolvimento (BIRD).

Nos anos 60, em função dos os sucessivos e crescentes déficits no balanço de pagamentos, provocados pelas perdas de competitividade externa dos seus produtos norte-americanos, redução das suas exportações, expansão das suas multinacionais e, principalmente, pelo excesso de gastos militares provenientes das Guerras (Fria,  Coréia e  Vietnã), fizeram com que os dólares emitidos superassem o volume de reservas em ouro, assustando o presidente Kennedy, pois o que ele mais temia era a guerra nuclear e o déficit do balanço de pagamentos, talvez já prevendo os ataques, sob a liderança do general DeGaulle, que o dólar sofreria e as consequências para a hegemonia do dólar como meio de pagamento internacional.

O excesso de liquidez internacional e a desconfiança cada vez maior no dólar levaram o presidente Nixon, em 1971, a suspender a conversibilidade, gerando uma grande instabilidade no sistema financeiro internacional. O dólar voltaria a ganhar importância, como moeda internacional, a partir do primeiro choque do petróleo (1973), quando a Opep decidiu aceitar apenas a moeda norte americana como forma de pagamento. 

Em 1979, a 2ª crise do petróleo e a decisão do presidente do banco central dos EUA, Paul Volcker, em promover um aumento brutal da taxa de juros, com o intuito de valorizar o dólar, provocou, em 1982, a crise da dívida externa que atingiu fortemente a economia latino-americana. A década de 90 foi marcada pelas negociações das dívidas externas e por uma série de crises cambiais e ataques especulativos no México, Tailândia-Ásia, Rússia, Brasil e Argentina.

Em 2008, a principal economia do planeta, foi palco de mais uma enorme crise financeira e econômica proveniente do estouro da bolha do mercado imobiliário (subprime). Esta crise, rapidamente se alastrou para a Europa, Japão e China, mostrando que assumiria um caráter global, fato que permitiu uma rápida e coordenada ação dos bancos centrais dos EUA, Europa, Japão e China para acalmar e restaurar a confiança no sistema financeiro mundial. 

A atual crise sanitária, a Covid-19,  provocou impactos econômicos similares à uma economia de guerra, sem que precisemos de tanques, porta aviões, aviões e mísseis, mas colocando os países atingidos em situações extremas, pois o inimigo invisível nos amedronta, nos enclausura e pode dizimar milhões de vidas. Esta situação de guerra, exigiu a paralisação de diversas atividades empresariais (shutdown) e o isolamento social (lockdown), com consequências, além das vidas que serão perdidas, econômicas e sociais, ainda imensuráveis.  

Autores:
Luis Frechiani é Mestre em Economia e Professor
Renata Moreira Frechiani é Mestre em Economia e Professora

DOENÇAS ECONÔMICAS: O vírus COVID-19 e seus impactos

Já não há mais dúvidas de que a economia mundial entrará em recessão e as questões que mais afligem os economistas é o tempo de duração e quais serão os remédios, quando controlarmos a pandemia, para sair da crise econômica.  A recessão pode ser caracterizada quando o Produto Interno Bruto (PIB) se retrai durante, pelo menos, dois trimestres consecutivos e que tem, como principal consequência, o aumento da taxa de desemprego. 


Este quadro, levou o Fundo Monetário Internacional (FMI) a disponibilizar US$ 1 trilhão para socorrer os países que necessitarem de recursos para atenuar os impactos econômicos e sociais da crise, que poderá ser mais grave e longa que a crise de 2008, com a falência das empresas de menor porte e mais vulneráveis às medidas de fechamento de lojas, cidades e do isolamento social. Nos Estados Unidos da América(EUA), o Federal Reserve Board (FED) praticamente zerou a taxa de juros e o senado dos EUA deverá  anunciar um pacote de estímulo à economia que pode passar de US$ 2 trilhões,  equivalente a aproximadamente 10% do PIB da, ainda, maior economia do planeta. 


A Organização Internacional do Trabalho (OIT), alertou que a pandemia pode provocar uma crise econômica global e destruir 25 milhões de empregos no mundo se os governos não agirem rapidamente para criar um mecanismo de proteção social e apoio à retenção de empregos  através de jornada reduzida ou licença remunerada, sugerindo, também, benefícios financeiros e fiscais para micro, pequenas e médias empresas, uma vez que são as principais geradoras de empregos no mundo. 


No Brasil, segundo o presidente da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil, George Pinheiro, 90% das atividades de comércio são exercidas pelas micro, pequenas e médias empresas e por conta da paralisação de grande parte das atividades, são as que mais precisarão de medidas que ajudem os empresários. 


A equipe econômica anunciou, no dia 16/03, um pacote de R$ 147,3 bilhões, adiantando recursos(antecipação do 13ºsalário dos aposentados, bolsa família, FGTS) e desonerando impostos de importação sobre medicamentos e equipamentos médicos e no dia 18, criou o Voucher de R$ 200,00 para trabalhadores autônomos. No dia 22/03, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou um pacote de R$ 55 bilhões de reais para enfrentar os efeitos econômicos da pandemia de Covid-19, com foco na preservação de empregos.  Segundo o presidente do BNDES, Gustavo Montezano, “o banco se preparou, se ajustou, para uma ação anticíclica. É um primeiro passo no enfrentamento dessa crise”. 


O pacote anunciado pelo BNDES inclui a suspensão dos pagamentos de empréstimos diretos e indiretos concedidos pelo banco, a transferência de valores para o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e a disponibilidade de mais recursos para micro, pequenas e médias empresas, que são grandes geradoras de postos de trabalho no Brasil. 


Para muitos economistas, em função da dimensão do surto viral e da crise econômica, estas ações do governo brasileiro podem surtir pouco efeito e sugerem a revisão do teto dos gastos públicos (Emenda Constitucional 95/2016) como a única alternativa para evitar uma forte e longa recessão no país.  A Medida provisória enviada hoje ao congresso, que permitirá a suspensão dos contratos de trabalho por até 4 meses, aliviara a pressão no caixa das empresas, podendo evitar falências, parece que se preocupou, apenas, com saúde das empresas e que precisará, tambem, criar mecanismos que garantam uma renda mínima para o trabalhador garantir o sustento das familias que serão atingidas pela MP. 


Os últimos dados sobre a pandemia Covid-19 são preocupantes tanto pelo número de infectados e mortos quanto pelos impactos, ainda não mensurados, no nível de atividade econômica e número de desempregados e na taxa de pobreza da economia global.  Por conta desta preocupação, me apoio no argumento do economista indiano e professor de Havard, Raj Chetty, para o qual  a ciência econômica deve ser usada” para curar as desigualdades e outros males sociais”  e , em função deste nobre objetivo,   devemos exigir dos governantes , a curto prazo,  políticas monetárias e fiscais expansionistas urgentes e com mecanismos de proteção social para evitar uma crise similar à da grande depressão de 1929, pois como disse John Maynard  Keynes,” a longo prazo todos estaremos mortos”.


Autores:

Luis Frechiani é Mestre em Economia e Professor

Renata Moreira Frechiani é Mestre em Economia e Professora


 

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