446 15/11/2020 às 13:53 - última atualização 22/11/2020 às 18:58

Coluna: Cazé | “Combater o racismo e fundamentar uma política antirracista, ...

Por Joacles Costa

Redação Em Dia ES

... uma educação antirracista, uma justiça antirracista é urgente.”
Combater o racismo e fundamentar uma política antirracista, uma educação antirracista, uma justiça antirracista é urgente
A escritora Bárbara Maia Cerqueira Cazé nasceu em nove de Janeiro de 1984 em Salvador – Bahia. É pedagoga pela Universidade Estadual de Feira de Santana, mestra em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo e cursa doutorado em Educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Idealizadora e coordenadora do Cineclube Afoxé. É curadora em festivais de cinema no Brasil. Integrante do Grupo de Pesquisa Identidades e Culturas no Cotidiano, da UERJ e do NEAB UFES. É mãe de Joaquim.

Organizou o livro “Mulheres Negras na Tela do Cinema”, publicado em 2020, pela Editora Pedregulho. Trabalha com projetos relacionados a Educação, Cinema e Negritude, Educação para Relações Étnico-raciais e Gênero.

Acompanhe a entrevista com a escritora Bárbara Cazé:

Joacles Costa: Onde estão as mulheres negras nas grandes produções do cinema nacional?   
Bárbara Cazé: As mulheres estão fora das grandes produções, isso é o que mostrou a pesquisa realizada pelo “‘A Cara do Cinema Nacional’: gênero e cor dos atores, diretores e roteiristas dos filmes brasileiros (2002-2012)”, realizada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa/GEMAA, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ. Os resultados apontaram que para o cargo de direção, considerado o de maior prestígio dentro da produção do filme e também considerado o principal criador da obra cinematográfica, é ocupado majoritariamente (84%) por homens brancos e não há presença de uma mulher negra nessa lista. A realidade não mudou muito desse período para hoje. Temos o trabalho da diretora Viviane Ferreira com o longa-metragem “Um dia com Jerusa” que tem ganhado repercussão positiva da crítica e do público, mas por conta da pandemia ainda não estreou nos cinemas. As mulheres negras estão ocupando os circuitos dos festivais com curtas e ganhando prêmios importantes do cinema nacional, como a capixaba Edileuza Penha de Souza que ganhou prêmio de melhor curta-metragem com o documentário “Filhas de lavadeiras” no Festival É Tudo Verdade e Renata Martins que ganhou na categoria melhor curta-metragem ficção o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2020 com “Sem Asas”. 

Joacles Costa: Como o livro Mulheres Negras retrata a participação destas mulheres na tela do cinema, dentro de uma perspectiva plural da cultura negra?
Bárbara Cazé: O livro é resultado das pesquisas que desenvolvemos sobre as personagens femininas negras no cinema nacional e a atuação do Cineclube Afoxé. Desde 2018 realizamos sessões cineclubistas na cidade de Vitória com filmes com personagens negras dirigidos e roteirizados por pessoas negras. Nas sessões, após a exibição, sempre tem uma roda de conversa com mulheres negras convidadas a colaborar na discussão suscitada pelo filme. Essa experiência de pesquisa e atuação social está registrada no livro. Temos aprendido que não basta só aparecer na tela, a representação por si não nos atende porque já cansamos de nos vermos no cinema no papel da empregada doméstica sem nome, sem história própria. As produções precisam dar conta da subjetividade de mulheres negras com personagens inteiras complexas, como somos. A arte não tem limite, portanto, só o racismo explica esse lugar fixado do negro no cinema e também na sociedade.

Joacles Costa: O cinema negro dá medo por que ele deixa à mostra a cicatriz racial brasileira e bota o dedo na ferida que promove a cura destas chagas coloniais?
Bárbara Cazé: O cinema negro dá medo a quem? Eu não tenho medo. O cinema é uma máquina de guerra na produção de imaginários e também um potente instrumento para descolonização de pensamentos. Quando denunciamos a ausência de negras e negros no cinema, estamos dizendo que há uma máquina de guerra produzindo invisibilidades, representações únicas e discursos que desumanizam 52% da população brasileira.  Esse processo violento e racista precisa acabar. O Movimento Negro brasileiro politizou o conceito de raça, denunciou e segue denunciando o racismo e vem ganhado destaque na cena nacional como resultado de anos de luta de pessoas como Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez e muitos que vieram antes deles. É o racismo estrutural que nos afasta da grande indústria cinematográfica, mas seguimos produzindo pelas bordas, nas fissuras. O racismo é uma ferida ainda aberta na sociedade brasileira.

Crédito: Nicolas Soares

Joacles Costa: Ter mulheres negras na mídia diz respeito à luta contra a discriminação racial e a padronização da beleza feminina. De que forma isto pode empodera as mulheres e levá-las a lutar por seus direitos e espaços na sociedade?
Bárbara Cazé: O Movimento de Mulheres Negras luta pelo enfrentamento ao racismo, sexismo e a desigualdade na sociedade brasileira. A pauta nunca foi somente a emancipação de mulheres negras. Estamos lutando pelo direito que todas as crianças conheçam a história África e da cultura afro-brasileira nas escolas (através da lei 10.639/2006), pelas cotas nas universidades e concursos públicos, por política de acesso e permanência nas universidades, contra o genocídio da juventude negras pelo aparato do Estado e outras. Acho importante frisar que a pauta do feminismo negro é plural e abarca demandas para diversos segmentos da sociedade. 

Joacles Costa: Na sua visão de pedagoga, de que forma você entende e acredita que a escola deve trabalhar o fortalecimento, o relacionamento e o respeito à aceitação da diversidade étnica dentro da escola?                                                                                       
Bárbara Cazé: Como pedagoga, mulher negra e pesquisadora, a minha atuação profissional visa fazer da escola um ambiente em que a diferença seja colocada e problematizada. É um desafio. Os problemas que encontramos na sociedade estão na escola porque a escola faz parte da sociedade. Aprendemos com Paulo Freire que nos humanizamos na relação com o outro, então a escola é um dos espaços em nossa sociedade para aprendermos a nos olhar no espelho, a conhecer a nossa história, a respeitar a história do outro e aprender valores como igualdade, dignidade, democracia e justiça social.  Isso vale para crianças negras, brancas, indígenas, quilombolas e outros grupos étnicos. Para isso, é preciso criarmos na escola a ambiência necessária para pensar, refletir e interferir na sociedade.

Joacles Costa: Quais os pontos reflexivos que necessitam ser trabalhados para serem diminuídas as situações de desigualdade e discriminação presentes na sociedade? 
Bárbara Cazé: Temos no Brasil uma situação que é o racismo estrutural que integra a organização econômica e política dificultando o acesso de pessoas negras a determinados espaços e manutenção das desigualdades marcadas pela raça. Combater o racismo e fundamentar uma política antirracista, uma educação antirracista, uma justiça antirracista é urgente. 

Título: MULHERES NEGRAS NA TELA DO CINEMA

Autor: Bárbara Maia Cerqueira Cazé

Idioma: Português
Encadernação: Brochura
Páginas: 192 páginas
Ano de edição: 2020
Editora: Pedregulho 
Preço: R$ 35,00
Onde comprar: Neste link ou através do contato: 27 99276-4514

Leitura Em Dia: O que você está lendo no momento?  

Acabei de ler recentemente “Marrom e Amarelo”, de Paulo Scott. Uma história densa, com uma escrita objetiva, narrada por um homem branco cuja vida é marcada pelo racismo que estrutura as relações sociais no Brasil e impacta negativamente na vida de brancos e negros. Tento mesclar as leituras acadêmicas com literatura, eventualmente dois temas coincidem.

Revisão de texto: Max Maciel

O artigo publicado é de inteira responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam as idéias ou opiniões do site EMDIAES.
 
 
 

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